Noivado, casamento e divórcio: a curta trajetória de Regina Duarte na secretaria da Cultura

Regina Duarte anunciou a saída do cargo de secretária especial de Cultura no governo Bolsonaro nesta 
Noivado, casamento e divórcio: a curta trajetória de Regina Duarte na secretaria da Cultura
Atriz deixa o cargo em Brasília após desgastes envolvendo nomeações e anuncia que vai assumiar a Cinemateca, em São Paulo.

Em uma entrevista ao programa Conversa com Bial, da Rede Globo, por exemplo, ela afirmou nunca ter se declarado feminista, mesmo que entre suas interpretações mais famosas esteja a protagonista de Malu Mulher.
Em vídeo publicado nas redes sociais do presidente, em que aparece ao lado da atriz, ela afirma que vai assumir a Cinemateca, em São Paulo.
“A família está querendo minha proximidade, eu estou sentindo muita falta dos meus netos, dos meus filhos”, justificou.
“Ir pra Cinemateca, do lado do teu apartamento, ali em São Paulo, se você vai ser feliz e produzir muito mais, eu fico feliz com isso. Chateado porque você se afasta um pouco do convívio nosso em Brasília”, afirmou o presidente.
Os rumores de que Regina poderia sair do ministério se arrastavam desde o início do mês.
O anúncio vem depois de uma série de desencontros: a atriz fez nomeações consideradas inadequadas ao perfil ideológico do governo e foi criticada pelo presidente pelos períodos que passou longe de Brasília.
Sua ausência no discurso em que Bolsonaro se defendeu das acusações de Moro — e que teve a presença de quase todo o primeiro escalão do governo — foi muito notada.
A BBC News Brasil relembra a curta trajetória da atriz na secretaria de Cultura.

Proximidade e ‘amoro’

Conhecida por sua carreira na televisão, Regina Duarte também começou a chamar atenção nas últimas décadas por seu posicionamento político de direita.
Sua propaganda contra Lula na campanha de 2002 em que dizia “tenho medo” é lembrada até hoje. Ela também apoiou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
Casada durante anos com o pecuarista Eduardo Lippincott, com quem tem uma fazenda de criação de gado da raça Brahman no interior de São Paulo, a atriz também sempre foi próxima ao setor ruralista, um dos que apoiaram Bolsonaro durante a campanha de 2018.
Ela inclusive já foi convidada para falar na ExpoAgro, um dos grandes eventos do setor, e demonstrou posições parecidas com as de Bolsonaro quanto à questão indígena, por exemplo, dizendo ser contrária à demarcação de terras.
Nas eleições de 2018, a atriz começou a demonstrar simpatia à figura de Bolsonaro, citando-o diretamente.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 2018, ela disse que Bolsonaro era um “cara doce”.
“Quando conheci o Bolsonaro pessoalmente, encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha”, disse.
Na mesma entrevista, ela afirmou que a imagem de Bolsonaro como uma pessoa “truculenta” foi construída por seus opositores.
“São imagens montadas, pois mostram a reação dele, mas não a de quem provocou a reação. É unilateral. Quando souberam que ele ia se candidatar, começaram a editar todas as gravações e também a provocá-lo para que reagisse a seu estilo, que é brincalhão, machão.”
A atriz também demonstrava afinidade ideológica com o governo.
A série da TV Globo, de 1980, contava a história de Malu, uma mulher essencialmente feminista e que se posicionava contra os valores morais da época.
“Eu nunca me declarei feminista, mesmo fazendo a Malu. Eu não acho que as coisas são por aí. Acredito que há caminhos intermediários. Eu fui e continuo conservadora”, disse.
Em 2019, primeiro ano de governo do presidente, a atriz postou várias imagens no Instagram mostrando não só Bolsonaro, mas também o então ministro da Justiça Sergio Moro; e o ministro da Economia, Paulo Guedes; frases defendendo a Operação Lava Jato e ações do governo na segurança, economia e combate à corrupção; além de convocações para manifestações pró-governo.

‘Noivado’ e ‘casamento’

Regina Duarte foi nomeada para a secretaria de Cultura em março, após a queda do ex-secretário, Roberto Alvim, que havia feito diversas referências ao nazismo em um discurso — repetindo, inclusive, frases de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista.
Embora se dissesse conservadora e de direita muito tempo antes de entrar para o governo, a atriz foi acusada por alguns bolsonaristas nas redes sociais de ser uma “espiã comunista” — eles não aprovavam seus laços com a Rede Globo (com a qual teve contrato por anos) e sua proximidade com a classe artística.
Seu início não foi imediato — antes de assumir oficialmente como secretária especial de Cultura, passou por um período de “testes” que o presidente chamou de “noivado” com o governo.
Durante o “noivado”, Regina esteve acompanhada em Brasília do filho mais velho, André Duarte Franco, que se declarava bolsonarista convicto nas redes sociais e inclusive acompanhou a mãe em reuniões no Planalto.


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