Situação de guerra na RDC provoca êxodo de congoleses para Angola

Solange Kambo Lula, congolesa de nacionalidade, tem 30 anos de idade, faz parte do grupo de 108 cidadãos da RDC, repatriados, recentemente, na fronteira do Luvo, para o país de origem.

A cidadã congolesa foi detida por entrada e estadia ilegais  em território angolano. A jovem congolesa, solteira, partiu do bairro Selembaú, em Kinshasa, para o mercado transfronteiriço do Luvo, num percurso de 310 quilómetros. “A vida está muito mal no Congo Democrático” afirmou Solange Lula. Ao Jornal de Angola disse que o factor guerra e a crise financeira que assola a RDC está na base da imigração dos cidadãos congoleses para Angola.
No dia 4 de Março, Solange Lula conseguiu “furar” as barreiras da fronteira do Luvo, para se fixar na comuna sede, onde conseguiu apanhar uma moto – táxi, para seguir viagem ao município de Mbanza Kongo, tida como zona trampolitana para chegar a Luanda.
Na viagem a capital do Zai-re, Solange Lula levava quiquangas na motorizada, que foram determinantes para a sua passagem no controlo policial do Nkoko, onde a ci-dadã congolesa, desceu e juntou-se com sucesso ao grupo das vendedoras do referido produto daquela aldeia. Com bacia na cabeça, a cidadã ludibriou as autoridades policiais ali destacadas, com gritos para publicitar o produto. “Quiquanga, quiquanga” soava em coro a voz da congolesa na companhia das vendedoras nativas. 
Depois de se livrar do único controlo policial, continuou a viagem de moto – táxi com destino a Mbanza Kongo, animada. Como o azar, nunca vem só, por volta das 18 ho-ras, as numerosas quiquangas de Solange Lula, que iam ao reboque, caíram na descida da aldeia do Kwanza. Uma zona esburacada com algum perigo, quando se conduz sem iluminação. Faltavam qualquer coisa como 25 quilómetros para chegar a Mbanza Kongo.
Nesse intermédio, um camião Kamaz da Polícia Na-cional, vendo o clima de agitação que apossou à cidadã congolesa, na recolha das quiquangas ao chão, imobilizou o carro, para aferir a situação. Já no local, os agentes da autoridade aproveitaram pedir a identificação pessoal, quer ao motoqueiro, quer à cidadã.
O motoqueiro, despreocupado, pronunciou-se em kikongo, dizendo que leva-va a senhora a troco de 1.000 Kwanzas, para Mbanza Kon-go, enquanto a cidadã congolesa, remeteu-se em “silêncio tumular”, como de mero es-pectador se tratasse.” Não tinha  domínio do Kikongo e do português” conta. Uma acção que lhe custou “sacrifícios” para se juntar ao grosso dos compatriotas ilegais na Unidade da Polícia de Guarda Fronteira do Nkoko, detidos numa operação de 72 horas, aguardando pelo repatriamento à RDC.
A cidadã congolesa es-tampava imagem de muita solidão, dizia ter saido do seu país, pelo clima negro de atrocidades que ai se vive actualmente. Para ela, as quiquangas que caíram, denunciaram, sem piedade, o sofrimento, porque ela viria passar de regresso ao país de Joseph Cabila, onde a cada dia, morre pessoas por penúria alimentar. 
“O Congo Kinshasa é um país rico em minérios e recursos florestais, mas, neste momento está mergulhado numa hecatombe, cuja salvação depende tão somente da realização de eleições livres e justas para definir o novo Presidente da República” desabafou Solange Lula, que diz ter a formação universitária no ramo de economia e gestão.

Aprender português

Solange Lula consumou a deslocação ao Luvo para responder a um convite formulado por uma tia residente em Luanda. Conta que foi aconselhada a optar pelo negócio de panos do Congo na fronteira Luvo, por ser o mais rentável, actualmente. As palavras da tia indiciavam uma estratégia, para a sua chegada a Luanda, depois de três meses de estadia em Mbanza Kongo, onde como já é prática constante, aprenderia as palavras-chave da língua portuguesa. 
A cidadã congolesa, numa clara confissão à reportagem do Jornal de Angola disse que tinha em posse oito terminais telefónicos de pessoas com quem podia contactar, a partir de Mbanza Kongo, para arquitectar o plano de viagem a Luanda.
O moto - taxista, Manuel Dibanzilua, 36 anos, não se escapou do cerco policial. Pesam sobre seus ombros o crime de promoção e auxílio a imigração ilegal, por ter contribuído, a troco de dinheiro, na infiltração da cidadã congolesa, Solange Lula, quando a instruiu para se juntar às demais mulheres angolanas que vendiam quiquangas no posto de controlo do Nkoko. O jovem motoqueiro que se arrependeu pelo acto cometido aguarda pela instrução do processo-crime em juízo. 

Serviços operativos

A Polícia Nacional está determinada no combate sem tréguas a imigração ilegal. O comandante da terceira Unidade de Guarda Fronteira, Delfino Nunda, que revelou o facto ao Jornal de Angola frisou que a corporação tem vindo a realizar serviços operativos, visando o combate a imigração ilegal na linha de fronteira entre a provínciaa angolana do Zaire e a vizinha República Democrática do Congo.
A operação, que resultou na expulsão dos 108 cidadãos congoleses, ocorreu nos últimos dias, ao longo das áreas de infiltração, numa zona de seis quilómetros da linha de fronteira do Luvo.
À pergunta de como os estrangeiros entraram constantemente ao território nacional, o comandante da terceira unidade de guarda fronteira denunciou a existência de uma rede de angolanos radicados na RDCongo, que se dedica a prática de promoção e auxilio de imigrantes de diversas nacionalidades, com intenção de se alojarem em Angola.
Para ele, os promotores das redes no Congo detêm o domínio da carta fronteiriça da província angolana do Zaire, para a infiltração a troco de valores de cidadãos estrangeiros de diversas nacionalidades.

Efectivos vigilantes

Francisco Paulo, o director do Serviços de Migração Estrangeira (SME) no Zaire, sublinhou que a operação que culminou com a apreensão do grupo de ilegais, ora detido, traduz  o resultado de um trabalho inteligente idealizado pelo Comando Geral da corporação em Angola. “Os órgãos do Ministério do Interior estão vigilantes para o combate a imigração ilegal” disse.
Referindo-se aos cidadãos estrangeiros detidos na província do Bengo, depois de passarem pelo Zaire, o responsável apontou a vulnerabilidade da fronteira, como um dos factores associado  à fuga ao fisco nos controlos policiais da província do Zaire.
Por este motivo, o especialista da imigração disse ser necessário conjugar esforços no sentido de aumentar a severidade na atribuição das penas aos cidadãos que cometem o crime de promoção e auxílio a imigração ilegal na região. A Lei 2/07 estipula uma pena que vai de dois a oito anos, para a tipologia do crime de Promoção e Auxílio a imigração ilegal. Os infractores têm sido condenados com penas que vão de três a seis meses.       
“Os auxiliadores dos ilegais têm sido remetidos ao juízo e são condenados, mas achamos que as penas aplicadas são brandas, ou seja, demasiado leves”, explicou Francisco Paulo, director do SME Zaire. 
Num encontro informal com os cidadãos congoleses ilegais no Luvo, o comandante provincial da Polícia Nacional no Zaire, comissário Manuel Gouveia dedicou parte da sua intervenção, em tecer conselhos sobre a necessidade do cumprimento das normas que regulam a Lei migratória angolana. “Todos os cidadãos estrangeiros são bem-vindos ao nosso país, desde que cumpram com as leis de imigração em vigor em Angola” sublinhou.
O também delegado provincial do Ministério do Interior no Zaire testemunhou na fronteira do Luvo o repatriamento dos 108 cidadãos congoleses às suas regiões de  origem.
A Polícia do Zaire realizou, igualmente, uma operação a que convencionou apelidar de “Raio X”, que permitiu a detenção de 337 congoleses por estadia ilegal e 291 por violação de fronteira. Foram ainda detidos, 27 nacionais por promoção e auxilio a imigração ilegal e três outros, por posse de 223 quilogramas de estupefaciente. Os cidadãos nacionais envolvidos nos crimes em referência estão detidos, aguardando pelo desfecho do processo penal em instrução.

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